Sobre o tema da exposição

O movimento impressionista foi, de certa forma, o rompimento com uma doutrina básica enraizada em todas as manifestações artísticas até então. Estas tinham embutidas em seus princípios, mesmo de forma não explícita, que as cores deveriam estar contidas, tanto em espaço como em forma, dentro das linhas rígidas do desenho. As cores, embora majestosas nos quadros dos grandes mestres, tinham um papel limitado. Eram as formas do desenho que ditavam onde elas poderiam estar e que áreas poderiam ocupar.

Este movimento surgiu em meados do século XIX, quando vários acontecimentos criaram condições propícias a esta nova forma de pintar. Vamos discorrer brevemente sobre eles. Primeiro, lembremos de que a utilização de câmeras fotográficas tornou-se corriqueira nessa época. Ela foi rapidamente incorporada aos meios auxiliares de pintura. Consta que eram utilizadas por Manet, Degas, Sisley, Toulouse-Lautrec, dentre outros. Elas permitiam o registro de detalhes, que poderiam ser facilmente relembrados quando, algumas vezes, os quadros eram terminados no ambiente calmo dos ateliês. Facilitavam, também, tomadas de cenas em movimento, fato bem lembrado nas famosas bailarinas de Degas. É importante salientar que os artistas não pintavam de fotografias mas com fotografias. Não eram cópias, eram recursos que permitiam a criatividade e imaginação começarem num ponto bem mais adiante. Diga-se de passagem que estas foram quase as palavras expressas por Delacroix, artista do Romantismo e um dos primeiros a usar a fotografia como meio auxiliar de pintura.

Um outro acontecimento foi a chamada Revolução Industrial, quando a indústria química levou às mãos dos artistas uma série de novos e interessantes pigmentos. Foi introduzido o viridian, um pigmento verde transparente e vibrante, obtido "misteriosamente" a partir do opaco e inibido verde óxido de cromo (mistério este desvendado apenas vinte anos depois). Foi também sintetizado o azul ultramar, permitindo assim que os artistas tivessem acesso a este belíssimo pigmento, até então privilégio de alguns, pois era muito caro. Seu processamento se dava a partir de uma pedra semi preciosa, o lapis lazuli. Foi também a época do surgimento da Química Orgânica, onde uma das primeiras consequências para a arte foi a sintetização do carmim alizarin, outro belíssimo pigmento transparente, até então obtido de uma planta conhecida como madder. Como se não bastasse, houve ainda nesta época vários desenvolvimentos no ramo da ótica. Primeiro nos trabalhos de Maxwell, na elaboração da teoria eletromagnética e na ideia de que tínhamos apenas três tipos de sensores na retina. Depois, Chevreul apresentou a noção das cores complementares, fato bastante explorado não só pelos impressionistas como pelos pós e neo-impressionistas. Além de tudo isto, inventou-se o tubo de tinta, o que facilitou sobremaneira a ida do artista para fora do ateliê e o contato com a pintura ao ar livre. O tema paisagem passou a ser explorado de forma mais amiúde, bem como todas as nuanças das cores contidas na luz e na sombra.

Sem dúvida, os avanços da fotografia contribuíram para diminuir a imponência do desenho. O acesso a novos e mais vibrantes pigmentos propiciaram então uma forte entrada em cena das cores. No mundo impressionista, elas desempenham os papéis mais importantes. Tinham a ousadia de ir além das, outrora, linhas rígidas do desenho. A pintura resultante tornou-se mais solta e emotiva, indo desaguar, tempos mais tarde, na pintura abstrata, onde as cores ficaram totalmente livres de qualquer limite.

No mundo quântico acontece algo parecido. Desde as primeiras informações, decorrentes de experimentos quânticos, os Físicos levaram cerca de um quarto de século para compreender que os rebeldes elétrons, assim como as cores no impressionismo, não ficavam contidos nas linhas rígidas ditadas pela teoria clássica. Eles podiam seguir qualquer trajetória. A sua localização, num determinado instante, não era algo determinístico como preconizava toda a Física até então. Era uma questão de probabilidade. Estes fatos levaram à formulação da Teoria Quântica, que é uma nova Física tão revolucionária como foi a nova pintura do Impressionismo.

O nome "Impressionismo Quântico" reflete ainda dois outros aspectos. O primeiro relaciona-se com a própria vida do artista. O início do seu gosto pelo desenho perde-se nas suas mais remotas lembranças, mas o seu primeiro quadro a óleo, ele lembra bem, foi feito com a idade de 12 anos. Entretanto, durante a vida, aprendeu a ser Físico. Embora suas atividades artísticas tenham seguido paralelamente, elas também ficaram contidas dentro das linhas rígidas que sua profissão naturalmente impunha. Foi nos últimos dois anos, assim como ocorrera com os elétrons e as cores, a arte passou a ocupar uma posição de destaque em sua vida, não sendo mais contida pelos afazeres de sua profissão. Atualmente, é só artista, sem linha nenhuma restringindo suas atividades.

Finalmente, o outro aspecto que o título acima encerra está na contemporaneidade de seu trabalho, fato este atestado pela incorporação da modernidade tecnológica de nossos dias. Se os impressionistas valiam-se da fotografia como meios auxiliares da pintura, hoje temos as câmeras e os recursos foto-digitais, que permitem estudos e simulações preliminares antes de se ir com as tintas para a tela. Tem-se ainda uma infinita facilidade de informações, propiciada pela rede mundial de computadores. Além disso, conta-se atualmente com centenas de novos pigmentos, a maioria de natureza orgânica. Fato contrastante com o que dispunham os impressionistas, onde o único pigmento orgânico de razoável qualidade que conheciam era o carmim alizarin. Hoje, têm-se os quinacridones, os azos, os phthalos, os naphtols etc. São pigmentos de uma transparência e tingimento até então nunca vistos.

A exposição "Impressionismo Quântico" é composta por vinte e três telas, realizadas pelo artista nestes últimos dois anos. O tema é aquele mesmo que os impressionistas mais gostavam, paisagens. No caso, as paisagens do Rio, principalmente do Rio Antigo.

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