Inserção na Arte

Na biografia, foi dito que minha pintura pode ser classificada como impressionista com toques expressionistas. Isto foi uma forma resumida e geral de situá-la. Vou apresentar aqui onde ela pode ser inserida dentro dos movimentos artísticos que existiram (ou que poderiam ter existido).

A busca de inovações e rompimentos com correntes do passado não é algo característico da arte atual (que, no momento, é chamada de Contemporânea - antes era Moderna). Ela sempre esteve presente na História da Arte. Só para dar um exemplo, fala-se da pintura antes e depois de Giotto, que foi a figura mais expressiva no rompimento com a Arte Bizantina (isto no início do século XIV) e tido como o fundador da Arte Renascentista. Giotto descobriu a maneira de criar ilusão de profundidade numa superfície plana. Ele antecipou a ideia de perspectiva sob regras matemáticas, introduzida pouco tempo depois, e que causou verdadeira revolução na forma de pintar. O primeiro quadro incorporando esta técnica data de 1425.

O ponto importante que quero destacar é que a evolução da pintura (e da arte de uma maneira geral) sempre esteve muito relacionada com as descobertas tanto técnicas, como tecnológicas e científicas. Assim, além da introdução da perspectiva, veio o advento da pintura a óleo em telas esticadas (meio mais usado na Renascença), a incorporação de novos pigmentos e o consequente aumento das opções de cores.

Nunca houve um período com tantos acontecimentos capazes de influenciar a História da Arte como na metade do século XIX. Primeiro, lembremos a descoberta da fotografia e o fato de que a utilização de càmeras fotográficas tornou-se corriqueira nessa época. Sem dúvida, o advento da fotografia acarretou um grande impacto no desenho e na pintura, que, até então, eram os únicos meios de se perpetuar uma imagem. Houve pintores que proclamaram a morte da pintura (é interessante observar que a proclamação da morte de alguma coisa não é algo inerente aos movimentos artísticos atuais). Foi aí que surgiu o Impressionismo. Para situar melhor meu ponto de vista sobre a inserção da minha arte no contexto das diversas correntes artísticas, deixe-me discorrer um pouco sobre o movimento impressionista.

Acho importante mencionar que o Impressionismo não surgiu assim de repente, apenas como uma reação ao advento da fotografia. Já havia mais ou menos nessa época duas grandes correntes de ideias, polarizadas principalmente por dois grandes artistas, Ingres e Delacroix. O primeiro era partidário da valorização das formas e das linhas precisas do desenho (Neoclassicismo). De fato, esta atitude encerrava o pensamento central de toda a evolução artística até então. As cores deveriam continuar desempenhando apenas um papel coadjuvante. Já para Delacroix, as cores tomariam um papel mais importante (Romantismo).

Esta foi a época também da chamada revolução industrial. Muitos estudiosos dizem que sem ela não haveria Impressionismo. A indústria química foi capaz de fornecer novos pigmentos, ou seja, as cores passaram a ter novos e mais destacados personagens. O Impressionismo foi a entrada em cena das cores, que iam audaciosamente além das linhas do desenho. Apareceu, então, uma pintura bem mais solta. O tema paisagem passou a ser um dos preferidos, juntamente com a pintura ao ar livre, onde a indústria já era capaz de fornecer os tubos de tinta, o que facilitou sobremaneira esta prática. A observação das cores da natureza, diretamente, levou a novos resultados nas misturas (daí a importância da descoberta de novos e mais vibrantes pigmentos).

É oportuno também lembrar que essa foi a época de grandes desenvolvimentos na Ótica. Primeiro nos trabalhos de Maxwell, na elaboração da teoria eletromagnética e na ideia de que tínhamos apenas três tipos de sensores na retina. Depois, Chevreul apresentou a noção das cores complementares, onde ficou explicado porque uma cor torna-se mais vibrante na presença de sua complementar (todos os sensores da retina funcionam ao mesmo tempo). Este fato foi bastante explorado não só pelos impressionistas, mas pelos pós e neo-impressionistas. Até mesmo a composição aditiva da luz foi tentativamente usada por Seurat (e outros seguidores), denominada de Combinação Ótica, mas que passou para a história como Pontilhismo.

Como essa foi uma época de grandes mudanças, deixou, também, muitos caminhos a serem seguidos. O escolhido pelos artistas apoiou-se no pensamento reinante de que era importante fazer algo diferente, sem necessariamente se preocupar no que fosse resultar. Está registrado que Paul Gauguin falou mais ou menos isto para Van Gogh, de que era importante buscar uma pintura diferente, e que o considerava como alguém que tinha realmente conseguido algo novo depois dos impressionistas. Assim, chegamos aos dias de hoje. Não me cabe julgar se foi seguido o caminho certo, visto que isto é questão de convenção. Como diz Ferreira Gullar em seu livro "Argumentação Contra a Morte da Arte", chegamos a um ponto onde há a negação pela simples negação. Nega-se e não se apresenta nenhuma opção a ser seguida. Isto leva a um vazio. Não há para onde ir. Assim, aproveitando o que diz muito bem Affonso Romano de Sant'Anna em seu livro "Desconstruir Duchamp" é preciso voltar e buscar novos caminhos para a arte.

Após o Impressionismo, acho que a arte, particularmente a pintura, começou realmente a trilhar um caminho diferente. Há muitos quadros do início do século XX, expostos no Museu d'Orsay, que retratam uma pintura de valores clássicos, onde se faz presente as cores, a suavidade e a leveza da pintura impressionista. O próprio Degas, que era um admirador do desenho de Ingres, não se furtou da modernidade de seu tempo em adotar a fotografia como meio auxiliar de pintura (como, aliás, já o tinha feito Delacroix) e desenvolver os belíssimos e conhecidos trabalhos com suas famosas bailarinas. O século XX foi repleto de descobertas de um número incontável de pigmentos orgânicos transparentes e de grande poder de tingimento. Apareceram os azos, quinacridones, ftalos, dioxazina, DPP dentre outros e a pintura passou ao largo de tudo isso. Até onde sei, apenas os pintores expressionistas usaram (de forma consciente) pigmentos da família dos quinacridones, dado o impacto de suas cores. Hoje em dia, esses pigmentos estão por aí, muitas vezes com nomes de falecidos pigmentos do passado, e não se sabe da importância e do que eles poderiam fornecer à pintura.

Houve um outro aspecto importante, introduzido pela pintura impressionista, que também foi perdido no decorrer do século XX. Acho isto interessante, porque este foi justamente o detalhe que evitou o presságio da morte da pintura frente ao advento da fotografia. A pintura impressionista passa apenas parte das informações para serem captadas pelos olhos (ao contrário da fotografia que passa todas). Não preciso recorrer a uma pintura tecnicamente complicada para exemplificar isto. Seja uma rosa, uma simples rosa, com suas inúmeras pétalas. Na pintura impressionista basta você fazer umas duas. Não se precisa entrar em detalhes com respeito às demais.  A mente de quem vê é que vai naturalmente formá-las. Este tipo de pintura possui essa áurea. Um quadro impressionista não é visto, ou melhor, interpretado, da mesma forma por duas pessoas. É evidente que isto acontece com tudo, pois as pessoas são diferentes, mas não na intensidade de uma pintura impressionista. Indo mais além, um quadro impressionista também não permanece o mesmo para a mesma pessoa. Ele vai mudando com o tempo, juntamente com as naturais mudanças da vida de quem o vê. Este fato, que não possui contrapartida na fotografia, separa completamente esses dois tipos de atividade artística (a fotografia também é uma forma de arte) e cessa aí a competitividade. Considero este um dos pontos mais importantes do Impressionismo.

É justamente a partir deste ponto onde me esforço para situar minha pintura. Voltar ao início do século passado e seguir este tipo de pintura, mas incorporando toda a modernidade que nos foi colocada à disposição durante todo o século XX e que continua pelo século XXI. Fiz um estudo amplo dos novos pigmentos e sei o que explorar deles. Minha paleta é formada, na sua maior parte, de pigmentos orgânicos, cuja característica principal é a transparência e o grande poder de tingimento (isto seria um sonho para os impressionistas). Não uso, necessariamente, sempre os mesmos pigmentos. Procuro adaptar suas características a cada tipo de pintura. Preparo as superfícies de minhas telas também dentro da modernidade fornecida pela indústria química (algo sem contrapartida na época dos impressionistas). Finalmente, a exemplo da fotografia que de concorrente passou à aliada da pintura, também não me furto de recorrer ao mundo digital para fazer simulações de cores, formas e composições.

Pode ser que haja algum questionamento no tocante à atualização do meu trabalho, por estar voltando a tão longe (início do século passado) para situá-lo. Primeiro, não vejo isso como um problema. Se estamos procurando por boa qualidade, é bom voltar onde ela parou. Segundo, os famosos "ready made" de Duchamp, que são uma referência para as linhas contemporâneas, datam quase da mesma época.

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